Intensivão de Exu: estudo, fundamento e a construção dos assentamentos

Há trabalhos que começam muito antes do momento em que conseguimos enxergar seu resultado.

Foi assim com o Intensivão de Exu realizado na Casa de Caridade Filhos de São Miguel Arcanjo: um caminho construído ao longo de várias aulas, estudos, confirmações e etapas práticas, até chegarmos, na última quarta-feira, ao encerramento desse ciclo com o banquete e a consagração final dos assentamentos.

Mais do que chegar ao resultado, nosso objetivo desde o início foi fazer com que cada filho compreendesse aquilo que estava realizando.

Porque, dentro da nossa formação, existe uma orientação que acompanhou todo esse processo:

Fundamento antes da execução.

O início: compreender antes de fazer

As primeiras aulas foram dedicadas ao entendimento de Exu, das firmezas e dos cuidados relacionados ao seu culto dentro dos fundamentos ensinados pela casa.

Um dos primeiros assuntos aprofundados foi o padê, também chamado de comida seca, e os elementos utilizados em sua preparação.

Estudamos, entre outros fundamentos, o simbolismo do:

  • mel;
  • azeite de dendê;
  • água;
  • marafo;
  • farinha utilizada como base.

Mais importante do que aprender uma fórmula, porém, foi compreender que cada elemento possui uma linguagem e uma função dentro do fundamento.

O mel, por exemplo, foi trabalhado a partir das ideias de cooperação, aproximação, propósito e harmonização.

O dendê foi estudado dentro do fundamento da casa relacionado ao apaziguamento e à estabilização.

A água nos permitiu falar de vida, nutrição, renovação e fluidez.

E o marafo foi apresentado simbolicamente como movimento, abertura e transformação.

A partir daí nasceu uma pergunta que acompanharia todo o restante do Intensivão:

“O que esta situação realmente precisa?”

Da teoria para o raciocínio

Depois de estudar os elementos, os filhos receberam situações práticas.

Em vez de simplesmente perguntar “qual padê fazer?”, cada pessoa precisava analisar o caso, identificar a necessidade e justificar por que utilizaria determinado fundamento.

Algumas situações pediam movimento.

Outras precisavam primeiro de equilíbrio.

Algumas falavam de aproximação e trabalho em conjunto.

Em outras, a necessidade principal era renovar, nutrir e permitir que algo voltasse a fluir.

A proposta nunca foi decorar respostas.

Era desenvolver raciocínio de fundamento.

E esse mesmo raciocínio foi levado para a etapa seguinte.

Por que isso está aqui?

Quando começamos a estudar os materiais presentes nos assentamentos, a pergunta mudou de forma, mas continuou sendo essencialmente a mesma:

“Por que isso está aqui?”

Ferro, barro, moedas, folhas, terras, metais, búzios e tantos outros elementos não deveriam ser vistos apenas como itens de uma extensa lista.

Passamos então a estudar suas características e os simbolismos trabalhados dentro da casa.

O ferro nos levou às ideias de força, estrutura, resistência e direção.

O barro trouxe o conceito de corpo, terra, receptáculo e materialização.

As moedas permitiram trabalhar valor, troca, comércio e circulação.

Os pregos falaram de fixação e ancoragem.

As terras nos mostraram como diferentes espaços representam diferentes movimentos da experiência humana: caminhos, trabalho, comércio, convivência, fé, saúde, encontros e transformações.

As folhas trouxeram a força vegetal, seus diferentes comportamentos e os fundamentos de reação, defesa, vitalidade, renovação e continuidade.

Aos poucos, aquela grande relação de materiais deixou de parecer simplesmente uma lista.

Ela começou a revelar um mapa de fundamentos.

Cada Guardião, uma identidade

Outro momento importante do processo foi a confirmação das particularidades de cada entidade.

Os elementos gerais foram estudados e organizados, mas cada Exu e Pombagira também poderia apresentar elementos específicos relacionados à sua própria identidade e ao seu campo de trabalho.

Por isso, antes das etapas práticas, realizamos as confirmações necessárias e registramos as particularidades de cada firmeza.

Esse cuidado tornou-se ainda mais evidente posteriormente.

Ao final do processo, nenhum assentamento ficou exatamente igual ao outro.

E não deveria ficar.

Cada Guardião possui sua própria identidade, sua forma de trabalho, sua história e sua maneira de se apresentar.

Primeira etapa: preparação e consagração dos elementos

Depois de semanas de estudo, chegou finalmente o momento de sair da teoria e começar a materializar aquilo que havia sido aprendido.

Na primeira grande etapa prática, reunimos os elementos gerais e aqueles que haviam sido confirmados individualmente.

Foi um dia dedicado à preparação e consagração dos elementos, trabalhando também a força das ervas e do fogo dentro do fundamento conduzido pela casa.

Chaves, moedas, metais, objetos pessoais e diferentes elementos começaram a ocupar seus lugares.

Os ferros, que até então eram peças físicas, passaram por seu processo de preparação.

O fogo marcou visualmente esse momento de transformação.

Quem participou daquele encontro pôde perceber que já não estávamos mais apenas falando sobre fundamento.

Agora ele começava a ganhar matéria.

Segunda etapa: o fundamento ganha corpo

Na etapa seguinte chegou o momento do emassamento e da construção dos assentamentos.

Os elementos previamente preparados foram organizados dentro de cada recipiente.

Folhas, moedas, búzios, metais, pedras e outros fundamentos passaram a formar um único conjunto.

Então veio a massa.

Mas talvez uma das experiências mais marcantes dessa etapa tenha acontecido justamente quando os olhos deixaram de participar do processo.

Em determinado momento, o trabalho foi realizado com os olhos vendados.

A proposta era diminuir a interferência da referência visual e permitir que cada médium se conectasse com seu Guardião durante a construção e a ornamentação.

Não se tratava de buscar um objeto “bonito” ou reproduzir um modelo.

Tratava-se de permitir que cada assentamento adquirisse identidade própria.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Quando observamos o conjunto ao final, encontramos dezenas de trabalhos diferentes entre si.

A mesma base de formação havia produzido expressões completamente particulares.

Foram horas de trabalho, concentração, cuidado e dedicação.

Até que a matéria finalmente tomou forma.

Aquilo que não se vê

Mesmo depois de toda a construção material, ainda havia uma etapa essencial.

Porque um assentamento não se resume ao recipiente, ao ferro ou aos elementos que conseguimos enxergar.

Dentro dos fundamentos reservados à casa, foi realizado o momento relacionado à energia vital e à ativação de todo o conjunto preparado até então.

Algumas partes desse processo pertencem à intimidade religiosa da corrente e, justamente por respeito ao sagrado, não serão detalhadas aqui.

Há ensinamentos que podem ser compartilhados.

Há outros que precisam ser vivenciados.

E compreender essa diferença também faz parte da formação religiosa.

A terceira etapa: mesa, banquete e consagração

Depois de todo esse caminho, chegamos à última quarta-feira.

Era hora de fechar esse ciclo.

Os assentamentos já estavam preparados.

Os elementos haviam passado por suas etapas.

O trabalho material estava concluído.

Então chegou o momento da Mesa de Exu.

Foi a noite do banquete, da consagração e da celebração.

Copo, bebida, fumo e os elementos próprios de cada entidade passaram a compor aquele ambiente que vinha sendo construído há semanas.

As velas acesas ao redor dos assentamentos transformaram o espaço.

Depois de tantas aulas, materiais separados, confirmações, compras, preparação, fogo, folhas, massa e muitas horas de trabalho, finalmente era possível contemplar o resultado de todo aquele percurso.

Não era apenas uma sala repleta de assentamentos.

Ali estavam materializados estudo, dedicação, responsabilidade, pertencimento e vínculo espiritual.

Fechamos o Intensivão com aquilo que ele sempre pretendeu ensinar:

não basta executar.

É preciso compreender.

Mais do que construir assentamentos

Ao longo de todo o Intensivão, trabalhamos aproximadamente 30 assentamentos e 8 emassamentos, cada um com suas necessidades e particularidades.

Mas talvez o maior resultado não esteja nos números.

Está no conhecimento construído durante o percurso.

O filho que participou desde o início não viu simplesmente um assentamento aparecer pronto.

Ele estudou os elementos.

Questionou.

Aprendeu seus fundamentos.

Participou da preparação.

Colocou a mão na massa.

Vivenciou a transformação.

E chegou à última etapa sabendo que aquilo que estava diante dele possuía uma história.

É justamente essa consciência que buscamos dentro da formação da Casa de Caridade Filhos de São Miguel Arcanjo.

Porque tradição não precisa significar repetição sem entendimento.

Tradição também é transmitir conhecimento, formar pessoas e permitir que os fundamentos sejam preservados com responsabilidade.

Um ciclo se encerra. O aprendizado continua.

A consagração final encerrou uma etapa importante.

Mas desenvolvimento espiritual não termina quando o assentamento fica pronto.

Na realidade, começa uma nova responsabilidade.

Cuidar.

Respeitar.

Compreender.

Manter.

E continuar estudando.

O Intensivão de Exu termina deixando uma frase que repetimos durante todo esse caminho e que continuará acompanhando nossas próximas formações:

Fundamento antes da execução.

Porque quando compreendemos o porquê, aquilo que fazemos deixa de ser apenas repetição e passa a carregar consciência, responsabilidade e propósito.

Para encerrar este ciclo, deixamos também o nosso reconhecimento e os nossos parabéns a todos os médiuns que participaram desse Intensivão, pela confiança, dedicação, disciplina, paciência e entrega em cada uma das etapas.

Laroyê Exu. Mojubá.

Axé!

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